Porque o “Como começar” com acessibilidade não deveria existir?

Atualizado em: 11/05/2020

Sou uma pessoa que fala muito de acessibilidade em eventos e palestras. Não pensem que eu acho que esse assunto deveria desaparecer das comunidades e eventos! Nada disso! Acho que eles não deveriam ser os ÚNICOS lugares que falam de acessibilidade. Vou explicar o porque nesse artigo.

Começos turbulentos

Quando estamos no início dos aprendizados, o que mais importa são as entregas. Conseguir ou não entregar algo e no tempo adequado é o que mais importa para nós.

Com o tempo e com a maturidade certa, vamos evoluindo e nos preocupando mais com a qualidade das entregas. Nesse momento que passamos a criar um código semanticamente correto, fazer mais testes, nós preocupar com um código melhor escrito. Entre outras coisas que vemos as vezes em matérias como engenharia de software, mas achamos que não são importantes no começo.

Todo código escrito se torna legado de um dia para o outro. Alguns códigos envelhecem mais rápidos que outros. As vezes é a atualização de um framework o torna legado ou o modo com que foi escrito o torna legado. Principalmente quando não usam os padrões de arquitetura, não pensam na legibilidade do código, enfim. Vocês já entenderam, certo?

Mas qual a relação desse processo de evolução com a acessibilidade?

A acessibilidade normalmente não é mencionada na faculdade, mesmo em matérias onde existe o lugar de pauta como IHC (Interação Humano-Computador) ou em lugares chamada de IHM (Interação Homem-Máquina).

Já tive mentorados que tinham dificuldades de aplicar conceitos como Affordance, Semiótica e Gestalt no cotidiano. Porque os professores normalmente só apresentam a teoria e pedem trabalhos teóricos ou provas teóricas dos assuntos. Pois bem, com a vida aprendemos que onde não existe prática, não existe aprendizado.

Bom, e o que isso tem haver com o meu trabalho?

Se todas as pessoas que trabalham com você tiveram processos de educações parecidas, muito provavelmente suas faculdades não falaram sobre acessibilidade. Ou se você aprendeu tudo por conta, é bem possível que esse assunto não tenha surgido nos seus estudos.

Por conta daquela pressa e senso de urgência que existe no início, de fazer acontecer e fazer dar certo, qualidade e acessibilidade não virão prioridades no início das carreiras.

Essa pressa ou o ímpeto de urgência vai diminuindo com a experiência. Dando lugar para o aprofundamento dos aprendizados. Dando lugar a preocupação com a qualidade do que é produzido. Isso é natural com qualquer pessoa ou empresa.

É por conta desse processo que para a pergunta “Quanto você acha que o assunto acessibilidade está relacionado com o seu trabalho atualmente?” surgem respostas como:

Muitas vezes os prazos aliados com a falta de conhecimento não deixam que apliquemos acessibilidade nos projetos

Sou back-end então atualmente não afeta muito

Estou trabalhando em um desenvolvimento de ERP, embora acredite que também seja importante dar atenção a isso, não é algo que a coordenação tem dado importância no momento.

Ou respostas para a pergunta “Você acha que seus superiores entendem que a acessibilidade é importante?”

As pessoas não lembram, ou não consideram um publico representativo. Algumas vezes o interesse é somente ganhar pontos com ferramentas como google por exemplo.

Ouvi que os usuários do sistema não possuem nenhuma deficiência então ele não precisa estar acessível a um grupo que não o utiliza. Se um dia existir, adaptações podem ser realizadas

Não digo o chefe, mas clientes, quando pedem para desenvolver um site, por exemplo, não têm a mínima ideia do que seja acessibilidade. E como eles costumam não ter deficiência, ou isso não fazer parte de seu cotidiano, só ficam interessados na entrega do produto final, não se ele atende ou não os quesitos de acessibilidade. E eu gostaria de mudar um pouco isso.

Juntando os pontos

Por conta de um processo de ensino e apresentação da acessibilidade, ela normalmente é considerada como algo isolado e que pode ser deixada para depois. Ela não é considerada como parte do processo, porque ela NUNCA fez parte do processo.

Em alguma palestra de acessibilidade ou fala de alguém, essa pessoa vai ser conhecida sobre o assunto. Porque hoje em dia ainda é necessário esse tipo de destaque de conhecimento, porque ele não é natural.

Eu mesma estudei muito sobre o assunto. Desenvolvi sites com a aplicação de acessibilidade como prioridade do projeto. Fiz consultorias de acessibilidade explicando como melhorar sites e aplicações de software na questão de acessibilidade. Eu trabalhei com acessibilidade na prática em desenvolvimento e ensino. Mas todo esse processo não é natural.

Ainda existe muitos cursos de HTML e Front-End que nem mencionam a questão de HTML Semântico ou do porque utilizar determinadas tags. Como o Bruno Pulis disse em um artigo “Repensando o HTML“. Isso abre as brechas de pessoas fazerem cursos específicos para aprenderem sobre acessibilidade.

Mas elas já estão nesse momento de suas carreiras de procurar sobre esses assuntos?

Concluindo as ideias

O título do artigo parece meio escandaloso e um pouco de click bait. Mas eu acho que ele é verdade.

O “como começar” não deveria existir, porque a acessibilidade não deveria estar a parte de nada! Enquanto a acessibilidade não entrar no processo, não ser naturalizada como normal, ela sempre será deixada para depois ou para quando der tempo.

O processo que eu menciono, é o processo de aprendizado, de desenvolvimento, de busca da qualidade. Que é basicamente tudo hoje em dia.

Futuramente vou escrever outros artigos e disponibilizar os resultados de uma pesquisa sobre acessibilidade que fiz em 2018.

Comentem o que acharam do artigo. Comentários construtivos, por favor. <3

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Bruno Pulis
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Excelente reflexão Livia estava lendo e dei de cara com a menção do meu artigo! Gratidão, realmente isso é algo que sempre acontece as pessoas tem a mania de colocar a acessibilidade mais como um impecílio do que algo que possa beneficiá-las.