Simplificar faz parte da acessibilidade

Atualizado em: 29/06/2020

Sempre quando falo sobre acessibilidade digo que ela não é apenas para as pessoas com alguma deficiência. São para todas as pessoas, com dificuldades de interpretação de texto ou até analfabetas. Nesses casos sempre existe alguém que me questiona:

Meu público não é de pessoas analfabetas!

Todas as pessoas que usam meu serviço sabem ler!

Você não está exagerando nesse lance de acessibilidade?

Bom vamos analisar alguns dados.

Um parêntese, quando falo pessoas com mais idade, não me refiro a idade X ou mais anos, porque a falta de entendimento de tecnologia pode ser a partir de qualquer idade.

Analfabetismo no Brasil

De acordo com relatório Síntese de Indicadores Sociais – 2019, do IBGE, o Brasil tem uma taxa de analfabetismo 10 vezes maior que a Argentina. Atualmente o índice de analfabetismo completo é de 6,8% da população.

O índice vem diminuindo a cada ano, mas isso porque o governo tem dado prioridade de investimento ao ensino direcionado à crianças e adolescentes. A falta de investimentos na Educação de Jovens e Adultos (EJA) acaba apresentando a perspectiva do governo em esperar a renovação da população.

Por conta disso, os mais idosos permanecem sem assistência e a margem da sociedade sem acessos a diferentes itens de tecnologia e até contas de bancos.

Aqui entra a questão de acessibilidade que me refiro.

Falta de acesso

A questão da falta de acesso nesse caso é problemática, principalmente em tempos de pandemia.

Pessoas analfabetas podem abrir contas em banco, mas precisam ter um procurador para realizar as suas transações bancárias. Infelizmente, em uma situação de pandemia isso traz o problema de acesso e entendimento da tecnologia por pessoas com mais idade.

Se pensarmos que um problema para pessoa com mais idade é o estranhamento de tecnologia. Imagine quando existe uma característica a mais como o analfabetismo ou como a grande dificuldade de leitura de termos mais técnicos.

Na questão da pandemia, o maior problema é com as pessoas que não tem acesso com grande facilidade ao seu procurador ou um familiar que sempre ajudava com questões tecnológicas. Porque são grupos de risco e nem sempre os familiares ou os procuradores moram juntos dos seus idosos.

As pessoas não resolveram seus problemas de conhecimento de tecnologia de um dia para o outro e nem depois que começou o isolamento social. Essas pessoas ainda têm problemas para preencher cadastros para receberem o auxílio, para saber se deu certo ou não sua solicitação. São pessoas que estão à margem das facilidades da tecnologia, infelizmente.

Indicadores de energia

Algo que algumas pessoas podem não ter parado para pensar foi como algumas ações do governo puderam beneficiar diferentes públicos.

Quando foi implementado o Indicador de consumo de energia do Inmetro o controle e entendimento do consumidor mudou completamente. Esse indicador permite entender de maneira fácil se um produto economiza mais que outros ou gasta mais que outros, sem precisar fazer contas e analisar muitos parâmetros.

Ficou mais simples tomar decisões assertivas com relação a qual produto compensa mais, qual é melhor, principalmente sobre o aspecto da economia de energia.

Se pensarmos com relação à acessibilidade esse indicador é essencial. Porque permite o entendimento fácil de diversas características que são mais complexas de entendimento, como voltagem e gasto energético.

Indicador de conserto

Agora vem o principal motivo de escrever o artigo. A União Europeia desenvolveu um índice para falar o quanto é consertável um produto. Eles estão criando uma legislação na qual as peças de um produto deverão ser fornecidas pelos próximos 10 anos de disponibilização no mercado.

Este índice foi criado pela falta de acesso às peças depois de um certo tempo e pelo alto número de produtos que quebram depois que acaba a garantia.

O índice traz benefícios sobre aumentar a sustentabilidade, pois, sempre descartamos produtos por problemas técnicos. Mas não existe o descartar para fora do planeta. Além disso, existe novamente o desenvolvimento de um índice que permite o entendimento de uma séria de parâmetros complexos.

Em um processo de decisão de compra de uma geladeira ou um fogão, que são bens que consideramos duráveis, um índice como esse vai aumentar muito a certeza e o poder do consumidor. A pessoa não vai ter que ouvir horas de review e informações para ter mais certeza que uma geladeira é melhor que a outra porque é possível de consertar uma peça.

Falei sobre ouvir reviews né? Mas quantas pessoas você conhece que ouvem review de especialistas? Quantas pessoas você soube que fazem reviews usando uma linguagem fácil de entender por todo mundo?

Acessibilidade de entendimento

Índices como este criados pela Europa permitem que qualquer pessoa passe a entender diversas características que possuem algum nível de complexidade.

No artigo usei a questão de pessoas analfabetas para mostrar como esses índices são importantes para permitir a sua autonomia.

Vocês podem novamente pensar que públicos como esses não são o objetivo dos seus negócios. Porém, não existe apenas um tipo de analfabetismo. Existe o analfabetismo educacional, o analfabetismo tecnológico, o analfabetismo técnico (pessoa que não entendem termos técnicos). Existem N tipos.

Quando excluímos um público, excluímos pessoas que talvez fossem muito beneficiadas com as nossas soluções.

Acessibilidade nesses casos não existe solução mágica, mas pensem que vocês podem estar perdendo N oportunidades de negócios. Inclusive a que considero mais importante: ajudar pessoas.

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